sábado, 26 de janeiro de 2008

A síndrome do obscurantismo

ROBERT KURZ

Na imagem que faz de si mesmo, o Ocidente é um mundo livre, democrático e racional, ou seja, o melhor dos mundos possíveis. Do seu ponto de vista, esse mundo é pragmático e aberto, sem pretensões utópicas ou totalitárias. Cada um deve "ser feliz segundo seu próprio modo de ser, de acordo com a promessa de tolerância feita pelo Iluminismo europeu.
Os representantes desse mundo se dizem realistas. Afirmam que suas instituições, seu pensamento e sua ação encontram-se em harmonia com as "leis naturais da sociedade, com a "realidade atual. O socialismo, pelo que ouvimos, desmoronou porque não era realista. Junto com o socialismo, foi definitivamente enterrada toda utopia de uma mudança fundamental da sociedade. E os antigos críticos do "way of life ocidental agora se acotovelam nas bilheterias do "realismo para comprarem a tempo seu ingresso na economia de mercado globalizada.
Esse idílio da tolerância e da democracia econômica mundial, no entanto, produziu um novo inimigo. Com a morte do socialismo, entrou em cena o fundamentalismo religioso. O fundamentalismo é feio, muito mais feio do que o socialismo jamais poderia sê-lo. Aos olhos dos ideólogos ocidentais, ele possui feições árabes muito acentuadas. Nos últimos anos, o Pentágono começou a conceber o fundamentalismo islâmico como um substituto para o papel de inimigo histórico.
Como nos tempos da Guerra Fria, são subvencionadas na nova constelação mundial todas as forças políticas que se declaram contra o fundamentalismo e a favor do Ocidente, por mais corruptos e cruéis que sejam os regimes à frente de tais forças.
Mas o novo cálculo estratégico com que os especialistas ocidentais procuram justificar sua existência insiste em deixar resto. Ao contrário do socialismo, o fundamentalismo não é mais um adversário racional, politicamente definido e previsível em suas ações. Além de não possuir um centro de atividades nitidamente localizável no mundo, ele também não se restringe apenas ao islamismo. Em muitas regiões da África não-muçulmana e em toda a América Latina, seitas fundamentalistas cristãs assumiram nos últimos anos o lugar antes ocupado pelos movimentos socialistas.
A mesma ilusão social do fundamentalismo religioso floresce também nos próprios centros econômicos ocidentais. Foi um choque para os Estados Unidos descobrirem que os responsáveis pelo devastador atentado a bomba em Oklahoma City não eram terroristas islâmicos e estrangeiros, mas sim cidadãos brancos e norte-americanos, adeptos de uma facção ideológica cristã.
E quem poderia imaginar que num país como o Japão, considerado o aluno exemplar do sucesso econômico, um movimento radical comandado que prega o final dos tempos pudesse influenciar tantas pessoas e até aliciar adeptos no Exército japonês?
Os fanáticos religiosos tomam a ofensiva por toda parte. De onde eles vêm? Com certeza não de outros planetas. Vêm justamente do interior do próprio mundo dominado pela economia de mercado. O "realismo neoliberal, na verdade, conhece muito mal as pessoas. Ninguém mais pode negar que no mundo do liberalismo econômico a miséria social se alastra como um incêndio de vastas proporções.
Não apenas no Brasil, mas também em todo o mundo a liberdade e tolerância ocidentais dão provas de um cinismo próprio à "democracia do apartheid, como bem a denominou Jurandir Freire Costa. Ao mesmo tempo, não é apenas nas favelas que os vínculos sociais são rompidos, mas em todas as classes sociais. Tanto o efetivo processo econômico quanto a ideologia neoliberal tendem a dissolver as relações humanas na economia. O economista norte-americano Gary S. Becker foi laureado, em 1992, com o Prêmio Nobel por desenvolver a hipótese de que todo comportamento humano (até mesmo o amor) é orientado pela relação custo-benefício e pode ser representado matematicamente.
Os "realistas não têm resposta para a miséria social nem para a miséria das relações e sentimentos humanos num mundo inteiramente racionalizado pela economia; eles apenas encolhem os ombros e passam à ordem do dia imposta pelo mercado. Mas a miséria não pode permanecer calada, tem de encontrar sua própria linguagem. Como porém a linguagem racional do socialismo está morta, o irracionalismo da linguagem religiosa faz seu retorno a uma sociedade confusa _só que agora com uma gramática muito mais selvagem e funesta.
Agora se tornou evidente que o socialismo não era apenas uma ideologia, mas também uma espécie de filtro ético sem o qual a civilização moderna é totalmente incapaz de existir. Privada desse filtro, a economia de mercado sufoca em sua própria imundície, que deixou de ser assimilada institucionalmente.
Ao longo de quase 150 anos, até a década de 70 desse século, todo surto de modernização econômica desencadeava simultaneamente uma reação revolucionária da juventude intelectual. A solidariedade aos "fracos e oprimidos foi sempre um forte impulso à oposição e à crítica radical, inclusive sob o império da "juventude dourada das classes mais altas.
Após a vitória global do mercado, esse impulso extinguiu-se. Os "golden boys e as "golden girls da era neoliberal querem apenas jogar na Bolsa. A juventude da classe média, numa atitude narcisista, abandonou os preceitos morais e deixou de lado o trabalho intelectual. Seu espírito capitulou diante do mercado globalizado. Seja no Egito ou na Argélia, no Brasil ou na Índia, jovens ocidentalizados sonham em ganhar dinheiro como engenheiros ou médicos, jogadores de futebol ou corredores de atletismo; com o tempo, não se sentem mais responsáveis pela miséria social.
Os intelectuais estetizam a miséria e a exploram comercialmente; os sofrimentos daqueles que passam fome são transformados em publicidade.
O temperamento ditado pela lógica do mercado chegou mesmo a criar um "culto à maldade. Em seu livro sobre o "Renascimento do Mal, o sociólogo alemão Alexander Schuller afirma: "Não é mais o progresso e a razão que povoam nosso cotidiano e nossa fantasia, mas sim o mal. Desde a queda do socialismo, é possível verificar um aumento empírico da crueldade, e por toda parte impera uma maldade incompreensível.
Mas, se a própria juventude da classe média está moralmente perdida, a base moral para que os filhos dos pobres compreendam sua miséria é ainda mais problemática. Numa pesquisa realizada em Moscou com menores de 14 anos, a maioria dos meninos respondeu que sua "profissão dos sonhos é ser "mafioso, e as meninas, "prostituta.
O fundamentalismo não supera essa ausência de moralidade, mas apenas lhe dá uma expressão irracional. Quando essa regressão pseudo-religiosa se apodera do último resíduo de uma esperança perdida, arquivada ainda pendente pela história, a vontade de mudança torna-se o pálido desejo de ser deixado em paz pela economia de mercado.
O fundamentalismo não possui um programa de emancipação social, mas apenas um projeto ideológico de pura agressão, resultado aliás do próprio fracasso em concretizar a liberdade. Todo o seu programa esgota-se num ímpeto agressivo com roupagem religiosa, como na expressão dos jovens favelados de Paris: "J'ai la haine _tenho ódio.
As novas religiões do ódio, sejam elas de origem islâmica ou cristã, são todas de natureza sintética, arbitrária e eclética. Todas têm apenas o nome em comum com as autênticas tradições religiosas a que se remetem. São um subproduto da modernidade decadente das sociedades de mercado ocidentais ou ocidentalizadas. Pelo próprio fato de não oferecerem uma perspectiva histórica, tornam-se uma atraente alternativa de carreira para pequenos e grandes "líderes que se valem do ressentimento generalizado.
Os representantes da sociedade oficial e os ideólogos do neoliberalismo reagem a essa evolução ao tentarem aliar a lógica de mercado às "virtudes conservadoras. Os homens devem ser ao mesmo tempo egoístas e altruístas, implacáveis na concorrência e humildes perante Deus, minuciosos no cálculo abstrato de custos e benefícios e ao mesmo tempo moralmente imaculados.
Com essa esquizofrenia ética e pedagógica, o pensamento dos próprios "realistas econômicos transforma-se na mentira dos fundamentalistas: não há como diferenciar uma ideologia da outra. E isso não admira, pois o pano de fundo do fundamentalismo é constituído não apenas pela pobreza, mas também pelo medo da classe média com relação aos pobres. A ilusão pseudo-religiosa constrói seu ninho tanto nas cabeças dos pobres quanto na dos ricos.
A militância social da classe média, sob o disfarce de religião, não é menos poderosa do que a loucura dos pobres. Em seu ensaio "Visões da Guerra Civil, o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger caracteriza essa tendência das "sociedades respeitáveis: "Cidadãos discretos transformam-se da noite para o dia em 'hooligans', incendiários, fanáticos raivosos, 'serial killers' e franco-atiradores.
O fundamentalismo é "realista e o "realismo é fundamentalista. Ambos possuem a mesma estrutura ideológica. Ambos falam, como se sabe, do "final da história, só que a escatologia do mercado acredita que esse final já foi alcançado. E ambos transitam pelos mesmos meios: os empresários, assim como os pregadores supostamente iluminados, são ávidos por dinheiro. Os pregadores, assim como os políticos, são ávidos por aparecer na televisão.
Por outro lado, não se pode negar o caráter quase religioso do "realismo econômico. Pois não vimos o presidente George Bush, a exemplo de seu adversário islâmico Saddam Hussein, enviar à frente de batalha o Deus de uma religião militante? E isso não é apenas um simples detalhe. A racionalidade do mercado tem origem religiosa; ela só é racional na medida em que um sistema irracional fechado sobre si mesmo cria sua racionalidade interna.
O resultado da história moderna _o mercado total_ é o resultado de uma religião secularizada que ganhou forma no protestantismo. Os Estados Unidos, a última força mundial do mercado, estão impregnados do fundamentalismo calvinista que considera o sucesso financeiro um fim em si mesmo. A tolerância ocidental é somente uma forma particularmente pérfida de intolerância, pois o deus do mercado não admite nenhum outro deus além de si mesmo e tolera apenas aquilo que se submete incondicionalmente a seus métodos.
O fim da história é o retorno da história. O início da modernização econômica foi marcado pelas guerras religiosas do século 17. Essa época foi substituída pelo absolutismo, com sua estrutura estatal e mercantilista. Somente no século 19 nasceu o liberalismo do livre mercado. Mas como definir o século 20?
Sob o aspecto formal, ele transformou o mercado numa totalidade perfeita, mas não sem provocar crises avassaladoras. Este é o século em que a história começou a voltar-se para o passado. As economias estatais das duas guerras mundiais, o socialismo estatal tanto do Oriente quanto do hemisfério sul e também o keynesianismo do Ocidente (com seus rudimentos de economia estatal) podem ser compreendidos de certa maneira como um regresso à era mercantilista.
Hoje, após o colapso de todas as variantes da economia de Estado moderna, o neoliberalismo promete uma nova Era de Ouro para o livre mercado. Mas, se é verdade que a história voltou-se realmente para o passado, uma era totalmente diferente nos acena do futuro. O cientista político norte-americano Samuel P. Huntington diz mais do que imagina ao propor a hipótese de que a época dos conflitos entre ideologia e Estados nacionais será substituída por um "conflito de civilizações. Qual o significado disso, senão que o processo de modernização econômica _antes de ser definitivamente sugado pelo buraco negro da história_ retornará à era da militância religiosa e à Guerra dos 30 Anos?
O neoliberalismo será irremediavelmente arrastado por essa tendência porque sua própria "utopia negra do mercado total possui um germe de religião totalitária. O socialismo, ao contrário, não se baseava apenas na economia estatal, mas também na idéia de uma sociedade solidária, que sanciona suas próprias leis em vez de seguir princípios irracionais. Se não quisermos que o século 21 se torne uma nova época de guerras religiosas, devemos reformular o socialismo num registro não mais dominado pela economia de Estado. Somente desse modo será possível dar uma nova abertura à história.

1996


autor e tradutor:
ROBERT KURZ é sociólogo e ensaísta alemão, co-editor da revista ''Krisis''; publicou no Brasil, entre outros, ''O Colapso da Modernização'' e ''A Volta do Potenkim'' (Paz e Terra). Tradução de JOSÉ MARCOS MACEDO

fonte:
http://obeco.planetaclix.pt/rkurz56.htm

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

textos sobre racismo

João Bernardo em MAR, nº3, Fevereiro de 1992, pag.3]



1

Uma sociedade de classes não duraria sequer mais um minuto sem instituições e ideologias que reunam exploradores e explorados em mitos comuns. Em Portugal, por ordem de importân­cia, o futebol e o patriotismo. Como ninguém se parece sentir com vocação ou força para atacar o primeiro, pelo menos é bem vindo tudo o que ponha o nacionalismo em causa.
Para repor as coisas no devido lugar seria bom mostrar que, primeiro, os Descobrimentos não o foram. A expansão marítima fez os Portugueses entrar em relação com povos detentores de culturas próprias e, em tantos casos, com circuitos comerciais transconti­nentais já existentes. Segundo, desde início que muitos portugueses, dos que partiram e dos que ficaram, teceram sérias críticas à expansão colonial, que por isso não foi obra de todo um povo, mas de uma parte, contra a opinião de outra. Terceiro, a aristocracia mercantil e os missionários não implantaram a sua cultura num vazio, mas tiveram de destruir ou adulterar as civilizações já existentes. O que recorda, em quarto lugar, que essa expansão de novos ideais assentou em formas destrutivas e no morticínio.
Mas que a crítica ao patriotismo lusíada não sirva para dar brilho aos nacionalismos terceiro-mundistas. Foram os antagonis­mos de classe dessas outras sociedades, ou as habituais chacinas entre os vários povos, que permitiram ao colonialismo penetrar e firmar-se. Os horrores de um dado nacionalismo são o espelho em que todos os demais nacionalismos devem olhar-se.


2 & 3

Um "encontro de antigos opositores"? Para reunir actuais submissos? As celebrações do passado, mesmo daquele com que se esteja de acordo, adormecem as pessoas para as necessidades imediatas. A sociedade portuguesa depara-se hoje com formas de racismo que têm, pelo menos para os que as sofrem, consequências bem mais funestas do que as comemorações dos "descobrimentos". Penso que o encontro mais importante é o dos portugueses que vêem na Comissão o nacionalismo que não querem, com emigrantes africanos - ou os eternos ciganos - vítimas de discriminações de que por vezes só vagamente nos apercebemos.
E, se neste sentido vier a desenvolver-se uma corrente de opinião com efectiva audiência, "um encontro de pessoas de diversas sensibili­dades" não será apenas possível, mas forçoso. Um movimento dotado de verdadeiras bases sociais caracteriza-se precisamente por aglutinar posições tantas vezes distintas. Pode- -se seleccionar o inimigo, nunca se consegue escolher os aliados. E ainda bem.

[em MAR, nº 4, Maio de 1992, pag. 1]



LÁ E CÁ

Portugal inclui-se, nas últimas décadas, entre os países cuja emigração assume proporções económicas mais significativas. Apesar disso a cultura portuguesa oficial - tanto o romance e a poesia como a pesquisa científica - não tem concedido à emigração um lugar compatível com a sua importância. Os festejos em honra do "Sr. Emigrante" servem para ocultar a falta de qualquer trabalho de fundo.
Mas não é por a cultura portuguesa desprezar o papel da emigração que a emigração deixou de ser fundamental nas transformações recentes da nossa sociedade:
Os emigrantes de regresso ou em férias, e sobretudo os seus filhos, com uma mentalidade nova e uma moral mais aberta, deram cabo de alguns hábitos tacanhos e submissões tradicionais nas aldeias e cidades de província.
Nos últimos anos do fascismo a emigração em massa foi responsável por uma elevadíssima percentagem de ausências nas incorporações militares, contribuindo para apressar o fim das guerras coloniais.

*

Sem gozarem do devido reconhecimento no país de origem, os emigrantes sofrem também a hostilidade ou mesmo os insultos raciais nos países para onde vão trabalhar. Mas será que isso lhes abre os olhos para o fenómeno do racismo?
Será que o emigrante português em França, vítima do racismo, se sente solidário com os Árabes ou os Negros, vítimas de um racismo ainda pior? Será que o racismo sofrido pelos Portugueses na Alemanha os aproxima dos Turcos?
Ou será que os Portugueses procuram beneficiar de uma cor de pele relativamente mais clara, de uma religião relativamente mais cristã e de um país que se tem vindo a integrar - relativamente - na CEE?

*

Desenvolveu-se entretanto em Portugal um fenómeno simétrico: o dos imigrantes africanos que para aqui vêm trabalhar.
Todos os emigrantes portugueses sabem - e dizem-no repetida­mente - que a sua presença nos outros países é importante para as economias estrangeiras. Têm por isso de reconhecer que a presença em Portugal dos imigrantes africanos é importante para a economia nacional.
Todos os emigrantes portugueses sofrem manifestações de racismo nos lugares onde trabalham - e relatam-nas em pormenor. Por que não lutam então contra a hostilidade e o racismo de que são vítimas os Africanos em Portugal?
Será que os emigrantes portugueses, tão hábeis em iludir no estrangeiro as barreiras legais - e que tanto gostam de se vangloriar desse seu engenho - irão ajudar agora os imigrantes africanos a fazer o mesmo em Portugal?
Uma sociedade como a portuguesa, onde é difícil encontrar alguém que não tenha pessoas de família na emigração, deveria ser a primeira a manifestar-se contra todas as formas de racismo e a não praticar nenhuma delas.
Enquanto aqueles que forem vítimas do racismo lá se revelarem racistas cá haverá quem se ria cá e lá - os patrões que nos exploram a todos.

L’ANARCHISME ET MOI

Stig Dagerman

Les détracteurs de l’anarchisme ne se font pas tous la même idée du danger idéologique que représente celui-ci et cette idée varie en fonction de leur degré d’armement et des possibilités légales qu’ils ont d’en faire usage. Tandis qu’en Espagne, entre 1936 et 1939, l’anarchiste était considéré comme si dangereux pour la société qu’il convenait de lui tirer dessus des deux côtés (en effet, il n’était pas seulement exposé, de face, aux fusils allemands et italiens mais aussi, dans le dos, aux balles russes de ses « allié » communistes), l’anarchiste suédois est considéré dans certains cercles radicaux, et en particulier marxistes, comme un romantique impénitent, une sorte d’idéaliste de la politique aux complexes libéraux profondément enracinés. De façon plus ou moins consciente, on ferme les yeux sur le fait, pourtant capital, que l’idéologie anarchiste, couplée à une théorie économique (le syndicalisme) a débouché en Catalogne, pendant la guerre civile, sur un système de production fonctionnant parfaitement, basé sur l’égalité économique et non pas sur le nivellement mental, sur la coopération pratique sans violence idéologique et sur la coordination rationnelle sans assassinat de la liberté individuelle, concepts contradictoires qui semblent malheureusement être de plus en plus répandus sous forme de synthèses. Afin, pour commencer, de réfuter une variété de critique anti-anarchiste qui est souvent le fait de gens qui confondent leur pauvre petit fauteuil de rédacteur avec un baril de poudre et qui, à la lumière, par exemple, de quelques reportages sur la Russie, pensent détenir le monopole de la vérité sur la classe ouvrière et sur ses conditions, j’ai l’intention, dans les lignes qui suivent, de m’attarder sur cette forme d’anarchisme qui est connue, en particulier dans les pays latins, sous le nom d’anarcho-syndicalisme et s’y est révélée d’une parfaite efficacité non seulement pour la conquête de libertés jadis étouffées, mais également pour la conquête du pain.

Dans le choix d’une idéologie politique, cette voie royale vers un état de la société qui représente au moins quelques centièmes de ressemblance avec les idéaux dont on rêvait avant de s’apercevoir que les boussoles terrestres sont désespérément faussées, intervient presque toujours la prise de conscience du fait que la faillite des autres possibilités, qu’elles soient nazies, fascistes, libérales ou de toute autre tendance bourgeoise, ou encore socialistes autoritaires de toutes nuances, ne se manifeste pas seulement par la quantité des ruines, des morts et des infirmes dans les pays directement atteints par la guerre, mais aussi par la quantité des névroses et des cas de folie et de manque d’équilibre dans les pays apparemment épargnés comme la Suède. Le critère de l’anomalie d’un système social, ce n’est pas seulement une injustice révoltante dans la répartition de la nourriture, des vêtements et des possibilités d’éducation, il faut aussi que soit bien établi le fait qu’une autorité temporelle qui inspire la peur à ses administrés doit être l’objet d’une méfiance salutaire. Les systèmes basés sur la terreur, comme le nazisme, révèlent certes instantanément leur nature par une brutalité physique qui ne connaît pas de bornes, mais une réflexion un peu plus approfondie amène vite à comprendre que les systèmes étatiques les plus démocratiques eux-mêmes font peser sur le commun des mortels une charge d’angoisse que ni les fantômes ni les romans policiers n’ont la moindre chance d’égaler. Nous nous souvenons tous de ces gros titres noirs et terrifiants dans les journaux, à l’époque de Munich – combien de névroses n’ont-ils pas sur la conscience ! –, mais la guerre des nerfs que les maîtres du monde sont en train de mener en ce moment même à Londres contre la population du globe, au moyen de l’assemblée générale de l’ONU, n’est pas moins raffinée. Laissons de côté ce qu’a d’inadmissible le fait qu’une poignée de délégués puisse jouer avec le sort d’un bon milliard d’êtres humains sans que personne trouve cela révoltant, mais qui dira à quel point est horrifiante et barbare, du point de vue psychologique, la méthode selon laquelle sont réglées les destinées du monde ? La violence psychique, qui semble être le dénominateur commun de la politique que mènent des pays par ailleurs aussi différents que l’Angleterre et l’URSS, est déjà suffisante pour justifier que l’on qualifie leurs régimes respectifs d’inhumain. Il semble que pour les régimes autoritaires, aussi bien démocratiques que dictatoriaux, les intérêts de l’État soient peu à peu devenus une fin en soi devant laquelle a dû s’effacer le but originel de la politique : favoriser les intérêts de certains groupes humains. Malheureusement, la défense de l’élément humain en politique a été transformée en slogan vide de sens par une propagande libérale qui a camouflé les intérêts égoïstes de certains monopoles sous le voile de dogmes humanitaires douceâtres et sans grand contenu idéaliste, mais ceci ne peut naturellement pas, à soi seul, mettre en péril la capacité humaine d’adaptation, comme les propagandistes de la doctrine étatique veulent nous le faire croire.

Le processus d’abstraction qu’a subi le concept d’État au cours des âges est, selon moi, l’une des conventions les plus dangereuses de tout le maquis de conventions que le poète doit traverser. L’adoration du concret dont Harry Martinson s’est aperçu, au cours de son voyage en URSS, qu’il était le cœur de la doctrine étatique (et qui se manifestait par des portraits de Staline de toutes tailles et de tous modèles) n’était naturellement qu’un raccourci sur le chemin menant à cette canonisation de l’Abstrait qui fait partie des caractéristiques les plus effrayantes du concept d’État. C’est précisément l’abstrait qui, par son intangibilité, par sa situation en dehors de la sphère des influences, peut dominer l’action, paralyser la volonté, entraver les initiatives et transformer l’énergie en une catastrophique névrose de l’enchaînement au moyen d’une brutalité psychique qui peut certes, pendant un certain temps, garantir aux dirigeants une certaine dose de paix, de confort et de souveraineté politique apparente, mais qui ne peut avoir, en fin de compte, que les effets d’un boomerang social. La compensation que, dans une société étatique, l’individu se voit offrir, lors de chaque élection, pour les possibilités d’action dont il est privé est insuffisante en soi et le sera naturellement de plus en plus au fur et à mesure que sa capacité intérieure d’initiative se verra comprimée. Les liens invisibles qui, par-dessus les nuages, unissent dans une communauté de destin complexe mais grandiose l’État et la haute finance, les dirigeants avec ceux qui les manipulent, et la politique avec l’argent, instillent à la partie non initiée de l’humanité un fatalisme que ni les sociétés d’État pour la construction de logements ni les romans-pavés d’Upton Sinclair n’ont réussi à entamer.

Il doit donc pouvoir être établi que l’État démocratique de l’époque contemporaine représente une variété tout à fait nouvelle d’inhumanité qui ne le cède en rien aux régimes autocratiques des époques précédentes. Le principe « diviser pour régner » n’a certes pas été abandonné mais l’angoisse résultant de la faim, l’angoisse résultant de la soif, l’angoisse résultant de l’inquisition sociale a, au moins en principe, dû céder la place, en tant que moyen de souveraineté dans le cadre de l’État-providence, à l’angoisse résultant de l’incertitude et à l’incapacité dans laquelle se trouve l’individu de disposer de l’essentiel de son destin. Enfoncé dans le bloc de l’État, l’individu est sans cesse en proie à un sentiment lancinant d’incertitude et d’impuissance qui doit rappeler la situation de la coque de noix dans le Maelström ou celle d’un wagon de chemin de fer, attaché à une locomotive en folie, qui serait doué de pensée mais n’aurait pas la possibilité de comprendre les signaux ni de s’y reconnaître dans les aiguillages.

D’aucuns ont tenté de définir l’analyse obsessionnelle de l’angoisse qui caractérise mon livre Le Serpent comme une sorte de « romantisme de l’angoisse », mais le romantisme implique une inconscience analytique, une façon délibérée d’ignorer tout fait qui risquerait de ne pas cadrer avec l’idée qu’il se fait des choses. Alors que le romantique de l’angoisse, pris d’une joie secrète de voir soudain tout concorder, désire incorporer l’ensemble dans son système d’angoisse, l’analyste de l’angoisse lutte contre cet ensemble, avec son analyse comme bastion avancé, en mettant à nu, au moyen de son stylet, toutes ses ramifications secrètes. Sur le plan politique, ceci doit impliquer que le romantique, qui accepte tout ce qui peut alimenter les brasiers de sa foi, ne peut rien avoir à reprocher à un système social basé sur l’angoisse et le fait même sien avec une joie fataliste. Pour moi, qui suis au contraire un analyste de l’angoisse, il a fallu, à l’aide d’une méthode analytique d’exclusions successives, trouver une solution au sein de laquelle toute la machine sociale puisse fonctionner sans avoir recours à l’angoisse ou à la peur comme source d’énergie. Il est bien sûr exact que ceci suppose une dimension politique tout à fait nouvelle qui doit être débarrassée des conventions que nous avons pris l’habitude de considérer comme indispensables. La psychologie sociologique doit se donner pour tâche de détruire le mythe de « l’efficacité » du centralisme : la névrose, causée par le manque de perspective et par l’impossibilité d’identifier sa situation dans la société, ne peut être contrebalancée par des avantages matériels purement apparents. L’éclatement de la macro-collectivité en de petites unités individualistes, coopérant entre elles mais par ailleurs autonomes, que préconise l’anarcho-syndicalisme, est la seule solution psychologique possible dans un monde névrosé où le poids de la superstructure politique fait chanceler l’individu. L’objection selon laquelle la coopération internationale serait entravée par la destruction des différents États ne résiste naturellement pas à l’analyse ; car personne ne pourrait oser soutenir que la politique étrangère menée, sur le plan mondial, par les différents États ait contribué à rapprocher les nations les unes des autres.

Plus sérieuse est l’objection selon laquelle l’humanité ne serait pas, qualitativement parlant, capable de faire fonctionner une société anarchiste. C’est peut-être exact jusqu’à un certain point : le réflexe du groupe, inculqué par l’éducation, ainsi que la paralysie de l’initiative ont eu des effets totalement néfastes à une pensée politique sortant des sentiers battus. (C’est bien pour cette raison que j’ai choisi d’exposer mes idées sur l’anarchisme principalement sous forme négative.) Mais je doute que l’autoritarisme et le centralisme soient innés en l’homme. Je croirais plutôt, au contraire, qu’une pensée nouvelle, à sa manière, que, faute de mieux, j’appellerai le primitivisme intellectuel et qui, au moyen d’une analyse très fine, procéderait à une radiographie des principales conventions laissées de côté par son ancêtre le primitivisme sexuel, pourrait finir par faire des prosélytes parmi tous ceux qui, au prix, entre autres choses, de névroses et de guerres mondiales, veulent faire coïncider leurs calculs avec ceux de Marx, d’Adam Smith ou du pape. Ceci suppose peut-être à son tour une nouvelle dimension littéraire dont il vaudrait sans doute la peine d’explorer les principes.

L’écrivain anarchiste (forcément pessimiste, puisqu’il est conscient du fait que sa contribution ne peut être que symbolique) peut pour l’instant s’attribuer en toute bonne conscience le rôle modeste du ver de terre dans l’humus culturel qui, sans lui, resterait stérile du fait de la sécheresse des conventions. Être le politicien de l’impossible, dans un monde où ceux du possible ne sont que trop nombreux, est malgré tout un rôle qui me satisfait à la fois comme être social, comme individu et comme auteur du Serpent.

Traduit du suédois par Philippe Bouquet

A culpa é da mulher!

« La femme blanche portugaise cherche instinctivement à éliminer sa rivale noire
anathématisant sa race […]. En effet, la nécessité de lutter avec sa soi-disant rivale
non seulement conduit la femme à propager le mythe de l’infériorité, comme ségrégue
de plus en plus l’homme blanc de la convivialité avec les hommes de couleur …
Dans les rapports interraciaux, la femme blanche n’est pas étrangère à la dévalorisa-
tion du métis. »


Frase de um tal Jorge Dias, etnólogo salazarento na época do luso-tropicalismo. Não deixa de ser curioso que certas mulheres da pátria dessa ideologia, dão a mesma justificação para a animosidade xenófoba contra as suas patrícias mercenárias no nosso jardim à beira mar plantado.

trecho retirado do artigo citado mais abaixo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

estudos sobre racismo em portugal III

http://docserver.ingentaconnect.com/deliver/connect/brill/12570273/v14n1/s2.pdf?expires=1201115093&id=41885019&titleid=75000163&accname=Guest+User&checksum=77F57D489485D91914EF18BD4E773DFB

Racistas são os outros. As origens do mito do « não racismo » dos portugueses


Marques, João Filipe
Lusotopie, Volume 14, Number 1, 2007 , pp. 71-88(18)